sábado, 23 de dezembro de 2017

CAPÍTULO XI - Helena




Naquele dia fazia anos Estácio, e D. Úrsula assentara receber algumas pessoas a jantar, e outras mais à noite, em reunião íntima. Ela e Helena tomavam a peito fazer que a pequena festa de família fosse digna do objeto. Estácio opinou pela supressão do sarau; mas era difícil alcançar a desistência de corações que o amavam.
Logo de manhã, como ele se levantasse cedo, encontrou Helena que o convidou a seguila à sala de costura.
— Quero darlhe o meu presente de anos, disse ela.
Ali entrados, abriu a moça uma pasta de desenhos, na qual havia um só, mas significativo: era uma parte da estrada de Andaraí, a mesma por onde eles costumavam passear, mas com algumas particularidades do primeiro dia. Dois cavaleiros, ele e ela, iam subindo a passo lento; ao longe, e acima viase a velha casa da bandeira azul; no primeiro plano,desciam o preto e as mulas. Por baixo do desenho uma data: 25 de julho de 1850.
Estácio não pôde conter um gesto de admiração, quando a moça retirou de cima do desenho a folha de papel de seda que o cobria. Apertou a mão de Helena e examinou o trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exação das circunstâncias locais, as impressões de uma hora fugitiva que o lápis da irmã tivera a arte de fixar no papel.
—  Não podia fazerme presente melhor, disse ele; dáme uma parte de si mesma, um fruto de seu espírito. E que fruto! Não há muita moça que desenhe assim. Era talvez por isso que você saía algumas vezes sozinha com o pajem?
Estácio contemplou ainda instantes o desenho; depois levouo aos lábios. O beijo acertou de cair na cabeça da cavaleira. Foi o original que corou.
—  Andavam a gabar os meus talentos, disse Helena após um instante; tive a vaidade de dar uma pequena amostra...
—  Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa bocetinha de joalheiro.
D. Úrsula não tinha, decerto, o instinto da arte; mas o amor da família lhe ensinara uma estética do coração, e essa bastou a fazêla admirar
o trabalho de Helena.
—  Mas que digo eu todos os dias? exclamou D. Úrsula. Esta pequena sabe tudo!
—  Quase tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de agradecer...
—  O quê, tontinha? interrompeu a tia. Algum disparate, naturalmente, impróprio em qualquer dia, mas muito mais ainda no dia de hoje.
Enquanto as duas senhoras foram tratar das disposições do dia, Estácio mandou selar o cavalo e saiu. Queria comparar ainda uma vez
o desenho de Helena com o sítio copiado. A fidelidade era completa, e
o quadro seria absolutamente o mesmo, se se dessem algumas circunstâncias da primeira ocasião. Helena não ia ao lado dele; mas a vinte braças de distância flutuava a bandeira azul da casa do alpendre. Estácio afrouxou o passo do cavalo, como saboreando as recordações da primeira manhã, quando Helena se lhe mostrara tão singularmente comovida. Volveu a refletir na situação dela, e na paixão que lhe confessara, dias antes, com tamanha veemência. Se se tratava de uma felicidade possível, embora difícil, Estácio prometeu a si mesmo alcançarlha. Não era isso servir o sangue do seu sangue?
A casa do alpendre, até ali indiferente a Estácio, criava agora para ele um interesse especial. À medida que se aproximava, ia achando no edifício a fiel reprodução do desenho. Este não apresentava todas as particularidades da vetustez; mas continha as mesmas disposições exteriores, como se fora feito diante do original.
A uma das janelas estava um homem, com a cabeça inclinada, atento a ler o livro que tinha sobre o peitoril. Nessa atitude não era fácil examinálo; afiguravase, entretanto, uma criatura máscula e bela. A duas braças de distância, o indivíduo levantou a cabeça, e cravou em Estácio um par de olhos grandes e serenos; imediatamente os retirou, baixandoos ao livro.
— Mal sabes tu, filósofo matinal, disse Estácio consigo, mal sabes tu que a tua casa teve a honra de ser reproduzida pela mais bela mão do mundo!
O filósofo continuou a ler, e o cavalo continuou a andar. Quando Estácio regressou daí a alguns minutos, achou somente a casa; o morador desaparecera; circunstância indiferente, que escapou de todo à atenção do moço. Nem ele pensava mais naquilo; o espírito trotava largo, à inglesa, como o ginete, e ambos bebiam o ar, como ansiosos de chegar ao ponto da partida.





       





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domingo, 17 de dezembro de 2017

CAPÍTULO X

       

Estácio dirigiuse ao portão. Abriuo; um moço que ali estava entrou precipitadamente. Era Mendonça. Os dois mancebos lançaramse nos braços um do outro. Helena, a alguma distância, presenciou aquela efusão, e não lhe foi difícil adivinhar quem era o recémchegado.
A efusão cessou, ou antes interrompeuse, para repetirse. Quando os dois rapazes se julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante deles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã de Estácio, Mendonça ficou espantado. Cortejou cerimoniosamente a moça, e os dois seguiram até à casa, onde pouco depois entrou Helena.
Mendonça era da mesma estatura que Estácio, um pouco mais cheio, ombros largos, fisionomia risonha e franca, natureza móbil e expansiva. Vestia com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao grand boulevard, ao café Tortoni e às récitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva cor de palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho, pousava um chapéu de fábrica recente.
Estácio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação de Helena, cujas qualidades e educação louvou, com o fim de lhe fazer compreender o respeito e a afeição que ela de todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho preparatório do irmão, logo que entrou na sala.
Mendonça divertiu a família uma parte da noite, contando os melhores episódios da viagem. Era narrador agradável, fluente e pinturesco, dotado de grande memória e certa força de observação. Espírito galhofeiro, achava facilmente o lado cômico das coisas e mais se comprazia em dizer os acidentes de um jantar de hotel ou de uma noite de teatro que em descrever as belezas da Suíça ou os destroços de Roma.
A visita durou pouco mais de hora. Estácio quis acompanhálo até à cidade; ele não consentiu que fosse além do portão. Atravessando a chácara, falaram do passado, e um pouco do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a ocasião lhes permitiam. Mendonça, vendo que Estácio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.
—  Falasteme em uma de tuas cartas de certa Eugênia...
—  A filha do Camargo.
—  Justo. Negócio roto?
—  Quase terminado.
—  Terminado... na igreja, suponho?
—  Tal qual.
—  Quando?
—  Brevemente.
—  Marido, enfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal, como eu com a bossa viajante, e não sei qual de nós terá razão.
—  Talvez ambos.
—  Creio que sim. Tudo depende do gosto de cada um. O casamento é a pior ou a melhor coisa do mundo; pura questão de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moça; era então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...
—  É um anjo.
—  Como todas as noivas. Feliz Estácio! Segues a carreira de tua vocação, enquanto eu...
—  Tu?
—  Interrompo a minha, e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; não sou capitalista, nem meu pai tampouco. Adeus, viagens!
—  Tanto melhor! Arranjote noiva. Não é a tua vocação, mas não serás
o primeiro que a erre, sem que daí venha mal ao mundo.
—  Pois arranja lá isso... Em todo caso não será tua irmã.
—  Oh! não, disse vivamente Estácio.
—  Na verdade, é bonita; mas... se permites a franqueza de outrora, acholhe uma costela de desdém...
—  Que idéia! É a mais afável criatura do mundo. Verás mais tarde; hoje estava, talvez, preocupada. Em todo o caso, não havias de querer que ela saltasse a dançar contigo na sala, de mais a mais sem música.
Mendonça acabava de acender um charuto; apertou a mão de Estácio e saiu. Estácio acordou de um sonho. A realidade pôslhe as mãos de chumbo e repetiulhe ao ouvido a confissão interrompida de Helena. Ansioso por saber o resto, entrou ele imediatamente em casa. A diligência foi estéril, porque a irmã se recolhera ao quarto. Estácio imitoua. Era forçoso esperar uma noite inteira, demora que afligia, porque, dizia ele consigo mesmo, cumprialhe velar pela sorte de Helena, como irmão e chefe de família, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que fosse melhor. Uma noite não era muito; contudo, a preocupação retardoulhe o sono. A confissão súbita, lacônica e eloqüente da irmã ficaralhe no espírito, como se fora o eco perpétuo de uma voz extinta.
Nem no dia seguinte, nem nos subseqüentes alcançou o que esperava. Helena, ou evitava ficar a sós com ele, ou esquivavase a maior explicação. Nos passeios matinais, que eram freqüentes, procurou Estácio, mais de uma vez, tratar do assunto que o preocupava. Helena ouvia com um sorriso, e respondia com um gracejo; depois, dava de rédea à conversação e galopava na direção oposta. Como a fantasia era campo vasto, nunca mais o moço lograva trazêla ao ponto de partida.
Um dia, a insistência de Estácio teve tal caráter de autoridade, que pareceu constranger e molestar Helena. Ela replicou com um remoque; ele redargüiu com uma advertência áspera. Iam ambos a pé, levando os animais pela rédea. Ouvindo a palavra do irmão, Helena susteve o passo, e fitouo com um olhar digno, um desses olhares que parecem vir das estrelas, qualquer que seja a estatura da pessoa. Estácio possuía estas duas coisas, a retratação do erro e a generosidade do perdão. Viu que cedera a um mau impulso, e confessouo; mas, confessouo com palavras tais que Helena travoulhe da mão e lhe disse:
—  Obrigada! Se me não dissesse isso, vermeia disparar por este caminho fora até ao fim do mundo ou até ao fim da vida.
—  Helena!
—  Oh! não é vão melindre, é a própria necessidade da minha posição. Você pode encarála com olhos benignos; mas a verdade é que só as asas do favor me protegem... Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar o sacrário de minha alma. Não insista em pedir a explicação de palavras mal pensadas e ditas em má hora...
—  Mal pensadas? Pode ser; mas por isso é que são verdadeiras; se você tivesse tempo de as meditar, guardálasia consigo, avara de seus segredos e suspeitosa de corações amigos. Meu fim era somente ajudála a ser venturosa, destruir...
—  É tarde! interrompeu a moça, consultando o reloginho preso à cintura. Vamos?
Estácio sorriu melancolicamente; ofereceulhe o joelho, ela pousou nele o pezinho afilado e leve e saltou no selim. A volta foi menos alegre do que costumava ser. Eles falavam, mas a palavra vinha aos lábios, como uma onda vagarosa e surda; nenhuma cólera, mas nenhuma animação. Assim correu aquele dia; assim correriam outros, se não fora a vara mágica de Helena. O natural influxo era tão forte que o irmão voltou desde logo às boas, sendo as melhores horas as que passava ao pé dela, a escutála e a vêla, ambos contentes e felizes. O episódio da confissão vinha às vezes, como hóspede importuno, projetar entre eles o nebuloso perfil; mas o espírito de Estácio repeliao, e a alegria da irmã fazia o resto.
Entretanto, graças ao amigo recémchegado, o filho do conselheiro saiu um pouco de suas regras habituais, e começou a provar alguma coisa mais da vida exterior. Mendonça buscava realizar, em miniatura,
o seu esvaído ideal parisiense; havia nele o movimento, a agitação, a galhofa, que absolutamente faltavam a Estácio, e vieram darlhe à vida a variedade que ela não tinha. Alguns espetáculos e passeios, uma ou outra ceia alegre, tal foi o programa de uma parte íntima da existência de Estácio. Para contrastar com ela, tinha ele as manhãs do Andaraí e algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e à sua consciência, dizia o moço que estava a despedirse da liberdade.
A influência de Mendonça estendeuse à própria casa de Estácio. Mendonça gostava sobretudo da variedade no viver; não tolerava os mesmos prazeres nem os mesmos charutos; para os apreciar tinha necessidade de os alternar freqüentemente. Se fosse possível, era capaz de fazerse monge durante um mês, antes do carnaval, trocar o hábito por um dominó, e atar as últimas notas das matinas com os prelúdios da contradança. A fidelidade à moda custavalhe um pouco, quando esta não ia a passo com a impaciência. Em sua opinião, o que distinguia o homem do cão era a faculdade de fazer que uma noite se não parecesse com outra. O Rio de Janeiro não lhe oferecia a mesma variedade de recursos que Paris; tendo o gênio inventivo e fértil, não lhe faltaria meio de fugir à uniformidade dos hábitos.
O pior que lhe acontecia era a disparidade entre os desejos e os meios. Filho de um comerciante, apenas remediado, não teria ele podido realizar a viagem à Europa, nas proporções largas em que o fez, a não ser a intervenção benéfica de uma parenta velha, que se incumbira de lhe ministrar os recursos de que ele carecesse durante aquela longa ausência. Nem a parenta continuaria a abrirlhe a bolsa, nem o pai queria criarlhe hábitos de ociosidade. Tratava este, portanto, de obterlhe um emprego público. Mendonça estava longe de recusar; pedia somente que o emprego o não deslocasse da Corte.
Inquieto, amigo da vida ruidosa e fácil, inteligente sem largos horizontes, possuindo apenas a instrução precisa para desempenharse regularmente de qualquer comissão de certa ordem, Mendonça, com todos os seus defeitos e boas qualidades, era homem agradável e aceito. Os defeitos eram antes do espírito do que do coração. A variedade que ele pedia para as coisas externas e de menor tomo, não a praticava em suas afeições, que eram geralmente inalteráveis e fiéis. Era capaz de sacrifício e dedicação; sobretudo se lhe não pedissem o sacrifício deliberado ou a dedicação refletida, mas aquele que exige uma circunstância imprevista e súbita.
Não admira que a presença de tal homem viesse modificar o tom da sociedade de que era centro a família de Estácio, quando ele ali fazia alguma aparição. Era o sol daquela terra. Não tinha a rijeza do figurino, nem o ar do estrangeirado. A tesoura do alfaiate não lhe dissimulara a índole expansiva e franca. Acolhido como um filho, achava ali uma porção de casa. Que melhor aspecto podia ter a vida em tais condições, naquela família ligada por um sentimento de amor?
A noite do último dia do ano veio turvar a limpidez das águas.




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CAPÍTULO IX

       



Naquela mesma noite, D. Úrsula, que não havia de todo melhorado, adoeceu deveras. A família, mal convalescida da perda do velho chefe, viase agora ameaçada de uma nova dor, em todo o caso, exposta a novos receios. O Dr. Camargo declarou que o caso era grave, e deu princípio a rigoroso tratamento.
Helena era naquela ocasião a natural enfermeira. Pela primeira vez patenteouse em todo o esplendor a dedicação filial da moça. Horas do dia, e não poucas noites inteiras, passavaas na alcova de D. Úrsula, atenta a todos os cuidados que a gravidade da enferma exigia. Os remédios e o pouco alimento que esta podia receber, não lhe eram dados por outras mãos. Helena velava à cabeceira, durante o sono leve e interrompido da doente, achando em suas próprias forças a resistência que a natureza confiou especialmente às mães. Quando dava algum repouso ao corpo, não era ele ininterrupto nem longo; e mais de uma vez, alta noite, erguiase do leito, colocado provisoriamente no quarto contíguo, para ir espreitar a mucama que, em seu lugar, acompanhava a enferma. As prescrições do médico era ela que as recebia e cumpria. A voz seca e dura com que Camargo lhe falava, não era própria a tornálo amável e aceito; mas Helena cerrava os ouvidos à antipatia do homem para só obedecer ao médico. Este não tinha outra pessoa a quem interrogasse acerca dos fenômenos da doença, nem podia achar quem melhor os observasse e referisse; força lhe era aceitála. Assim, essas duas pessoas que se repeliam e detestavam, iam de acordo, desde que se tratava da vida de um terceiro.
O que completava a pessoa de Helena, e ainda mais lhe mereceu o respeito de todos, é que, no meio das ocupações e preocupações daqueles dias, não fez padecer um só instante a disciplina da casa. Ela regeu a família e serviu a doente, com igual desvelo e benefício. A ordem das coisas não foi alterada nem esquecida fora da alcova de D. Úrsula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como se nada extraordinário se houvesse dado. Helena sabia dividir a atenção sem a dispersar.
De si é que ela não curou muito. O vestido era singelo. Os cabelos, colhidos à pressa e presos por um pente no alto da cabeça, não receberam, em todo aquele tempo, a forma elegante e graciosa com que ela os sabia realçar. Acrescia o abatimento, que era impossível evitar no meio de tanta fadiga, certo cansaço dos olhos, que os fazia moles e talvez mais adoráveis, um rosto sem riso nem viveza, um silêncio atento e laborioso.
A doença durou cerca de vinte dias. Afinal, venceu a própria natureza de D. Úrsula, robusta apesar dos anos. A convalescença começou; com ela volveu a satisfação da família. O papel de Helena não estava acabado; diminuía, contudo, e Estácio interveio para que a irmã tivesse, enfim, alguns dias de absoluto repouso. Ela recusou, dizendo que o repouso perdido aos poucos seria aos poucos recuperado.
Havia no coração de D. Úrsula uma fonte de ternura, que Helena devia tocar, para jorrar livre e impetuosamente. A dedicação, em tal crise, foi a vara misteriosa daquele Horebe. A afeição da tia era até então frouxa, voluntária e deliberada. Depois da moléstia, avultou espontânea. A experiência do caráter da moça dera esse resultado inevitável. Toda a prevenção cessou; a gratidão da vida ligou fortemente o que tantas circunstâncias anteriores pareciam separar. Não o ocultou a irmã do conselheiro; já não tinha acanhamento nem reserva, as palavras subiam do coração à boca sem atenuação nem cálculo; fezse carinhosa e mãe.
No dia em que ela pôde sair do quarto pela primeira vez, Helena deulhe o braço e levoua até à sala de costura e das reuniões íntimas. Estácio amparoua do outro lado. Ali chegando, foi ela sentada numa poltrona. Estácio abriu um pouco a janela, para penetrar, além da luz, um pouco de ar. D. Úrsula respirou à larga, como lavando o pulmão com aquela primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficara de pé a seu lado, fêla inclinar a fronte, e imprimiulhe um beijo longo e verdadeiramente maternal. Estácio aproximarase; aquela manifestação encheuo de júbilo.
—  Bem merecido beijo! exclamou ele. Helena foi um anjo em todo este tempo.
—  Bem sei, retorquiu D. Úrsula; foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Pode ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal mérito é só teu.
Helena abraçou a convalescente.
—  Estácio, disse esta, agradece à tua irmã, como eu fiz.
Estácio inclinouse para Helena, a fim de lhe pousar na fronte o casto ósculo de irmão. Não o conseguiu, porque Helena, desviando o busto, estendeulhe sorrindo a mão esquerda e disse:
—  Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta um aperto de mão e o afeto de todos.
Estácio apertoulhe a mão, e sentiulha trêmula. Aquele movimento de castidade não lhe pareceu exagerado nem descabido; achoua assim mais bela. Uma criatura tão ciosa de si mesma, que nem admitia a carícia do irmão, não era digna de honrar o nome da família?
A convalescença de D. Úrsula foi lenta, e não a houve mais rodeada de cuidados e atenções. Os dois sobrinhos não a deixaram um instante sozinha, e inventavam toda a sorte de recreio com que pudessem distraíla: jogos de família ou leitura, música ou simples palestra íntima. Uma vez, lembraramse de representar, só para ela, uma comédia de duas pessoas. Outra vez, Helena organizou um sarau musical, em que tomaram parte Eugênia Camargo e mais três moças da vizinhança. Foi a primeira vez que a ouviram cantar. O sucesso não podia ser mais completo. Como o aplauso que lhe deram pareceu desconsolar um pouco a filha do médico, Helena preparoulhe habilmente um triunfo, fazendoa executar ao piano uma composição brilhante, sua favorita. Estácio, que quase não tirava os olhos da irmã, percebeulhe a intenção, e disselho. Helena esquivouse à alusão; mas, insistindo ele:
—  Não há nada que admirar, disse ela; Eugênia toca perfeitamente; era justo que também fosse aplaudida. Se há arte no que fiz, pareceme que é a mais singela do mundo. O melhor modo de viver em paz é nutrir o amorpróprio dos outros com pedaços do nosso. Mas, olhe; Eugênia nem precisa disso; tem a primazia da beleza. Veja se há criatura mais deliciosa.
Estácio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava. Era um grupo de duas moças e dois rapazes. Eugênia, pelo braço de um deles, estava de pé, ouvindo sem atender as palavras que ali diziam, porque os olhos inquietos derramavamselhe por toda ela e pela sala. Admiravase e espreitava a admiração dos outros. A figura era realmente graciosa; mas Estácio quiseraa mais inconsciente, menos preocupada do efeito que produzia.
—  Há cem belezas como aquela, disse ele.
—  Estácio! exclamou Helena com ar de repreensão.
—  A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à cara dos outros.
—  Você é um ingrato.
Naquela noite ficou mais patente que nunca a preponderância ganha por Helena, que se tornara a verdadeira dona da casa, a diretora ouvida e obedecida. D. Úrsula cedera, em poucas semanas, o que lhe negara durante meses.
Por que razão, pensando em todas as coisas, não conseguira ela apressar o casamento de Estácio? Estácio continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo para refletir. Ia agora menos ao Rio Comprido; os dias, quase todos, eram desfiados no remanso da família. Mas Helena insistiu tanto que ele prometeu fazer o solene pedido no primeiro dia do ano.
Estácio não havia esquecido a carta lida pela irmã; entretanto, por mais que a espreitasse e estudasse, nada descobria que lhe fizesse supor afeição encoberta. Nenhum dos homens que iam ali, e eram poucos, parecia receber de Helena mais do que a cortesia comum. D. Úrsula, a quem ele incumbira de interrogar a irmã acerca das palavras que esta lhe dissera na manhã do primeiro passeio, não obteve resposta mais decisiva.
A promessa de ir pedir Eugênia, fêla Estácio na segunda semana de dezembro, em uma noite sem visitas, que eram as melhores noites para ele. No dia seguinte de manhã, erguendose tarde, soube que Helena saíra a cavalo.
—  Sozinha?
—  Com o Vicente.
Vicente era o escravo que, como sabemos, se afeiçoara, primeiro que todos, a Helena; Estácio designarao para servila. A notícia do passeio não lhe agradou. O tempo andava com o passo do costume, mas à ansiedade do mancebo afiguravase mais longo. Estácio chegava à janela, ia até ao portão da chácara, com ar de aparente indiferença, que a todos iludia, a começar por ele próprio. Numa das vezes em que voltou à casa, achou levantada D. Úrsula; faloulhe; D. Úrsula sorriu com tranqüilidade.
—  Que tem isso? disse ela. Já uma vez saiu a passeio com o Vicente e não aconteceu nada.
—  Mas não é bonito, insistiu Estácio. Não está livre de um ato de desatenção.
—  Qual! Toda a vizinhança a conhece. Demais, Vicente já não é tão criança. Tranqüilizate, que ela não tarda. Que horas são?
—  Oito!
—  Dez ou quinze minutos mais. Pareceme que já ouço um tropel...
Os dois estavam na sala de jantar; passaram à varanda, e viram efetivamente entrar no terreiro Helena e o pajem. Helena deu um salto e entregou a rédea de Moema ao pajem que acabava de apearse. Depois subiu a escada da varanda. Ao colocar o pé no primeiro degrau, deu com os olhos no irmão e na tia. Fezlhes um cumprimento com a mão, e subiu a ter com eles.
—  Já de pé! exclamou abraçando D.Úrsula.
—  Já, para lhe ralhar, disse esta sorrindo. Que idéia foi essa de bater a linda plumagem? É a segunda vez que você se lembra de sair sem o urso do seu irmão.
—  Não quis incomodar o urso, replicou ela voltandose para Estácio. Tinha imensa vontade de dar um passeio, e Moema também. Apenas hora e meia.
Aquele dia foi o de maior tristeza para a moça. Estácio passou quase todo o tempo no gabinete; nas poucas ocasiões em que se encontraram, ele só falou por monossílabos, às vezes por gestos. De tarde, acabado o jantar, Estácio desceu à chácara. Já não era só o passeio de Helena que o mortificava; ao passeio juntavase a carta. Teria razão a tia em suas primeiras repugnâncias? Como ele fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu atrás de si um passo apressado e o farfalhar de um vestido.
—  Está mal comigo? perguntou Helena com doçura.
Ao ouvirlhe a voz, fundiuse a cólera do mancebo. Voltouse; Helena estava diante dele, com os olhos submissos e puros. Estácio refletiu um instante.
—  Mal? disse ele.
—  Parece que sim. Não me fala, não se importa comigo, anda carrancudo... Seria por eu sair de manhã?
—  Confesso que não gostei muito.
—  Pois não sairei mais.
—  Não; pode sair. Mas está certa de que não corre nenhum perigo indo só com o pajem?
—  Estou.
—  E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?
—  Não sei se poderei obedecer. Nem sempre você poderá acompanharme; além disso, indo com o pajem, é como se fosse só; e meu espírito gosta, às vezes, de trotar livremente na solidão.
—  Naturalmente a pensar de coisas amorosas... acrescentou Estácio cravando os olhos interrogadores na irmã.
Helena não respondeu; tomoulhe o braço e os dois seguiram silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco de madeira, Estácio sentouse; Helena ficou de pé diante dele. Olharam um para outro sem proferir palavra; mas o lábio de Estácio tremera duas ou três vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim, o moço venceuse.
—  Helena, disse ele, você ama.
A moça estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si, como assustada, e pousou as mãos nos ombros de Estácio. Refletiu ela no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa ocasião parecia concentrar todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente:
—  Muito! Muito! Muito!
Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula, pôs o dedo na boca, como a imporlhe silêncio. A vergonha flamejava no rosto; Helena voltou as costas ao irmão e afastouse rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do portão era agitada com força, e uma voz atroava a chácara:
— Licença para o amigo que vem do outro mundo!


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